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Malformações cavernosas cerebrais (MCCs) podem ser
encontradas em qualquer região do cérebro, porém são mais
comumente encontradas na região supratentorial. Esta área inclui os
lobos frontal, parietal, temporal e occipital, assim como o tálamo,
hipotálamo e gânglios da base. Pesquisas mostram que entre 50 a 70%
das MCCs supratentoriais cursam com distúrbios epileptogênicos e
muitas vezes a crise convulsiva é o único sintoma causado por estas
lesões nesta localização.[1]
As crises convulsivas relacionadas com MCC têm incidência maior que
aquelas causadas por malformações arteriovenosas (MAVs) ou gliomas.
E em geral, as crises convulsivas causadas por MCCs são de difícil
controle.
Os lobos temporais esquerdo e direito são
particularmente susceptíveis a atividade epilética. Existem vários
tipos de crise convulsiva, sendo que os tipos de crise associados a
MCC do lobo temporal mais comuns são as “parciais simples” e as
“parciais complexas”.
Parcial simples – é o tipo de
crise na qual o paciente permanece acordado, mas incapaz de controlar
certa experiência ou comportamento. As características da crise
dependem da área do cérebro afetada. Pode-se manifestar como sensações
intensas, movimentos incontroláveis, disturbios de visão ou de fala.
Crises parciais simples do lobo temporal causam mais comumente sensações
intensas inexplicáveis.
Parcial complexa – é o tipo
de crise na qual o paciente perde a consciência e passa a apresentar
“automatismos” – comportamentos como mastigação, deglutição,
alisar as roupas ou coçar-se.
Em cada indivíduo existem áreas cerebrais,
conhecidas como áreas epileptogênicas, que podem disparar crises
quando acionadas. A localização exata destas áreas é individual e
usualmente muito pequenas. Em cada pessoa essas áreas permanecem estáveis
ao longo da vida. Isto significa que caso seja realizado uma
eletroencefalografia (EEG) ou magnetoencefalografia (MEG) para definir
a região da área epileptogênica de um determinado paciente, ela não
deve mover-se ao longo do tempo.2
Limitações da EEG\MEG, especificamente o posicionamento dos
eletrodos, tornam impossível a localização dos limites da área em
um determinado paciente.
MCCs podem acionar áreas epileptogênicas,
incluindo aquelas dos lobos temporais de duas maneiras diferentes.
Primeiramente, podem causar compressão da área epileptogênica. Em
segundo lugar, a hemorragia das MCCs pode formar depósitos de
hemossiderina no local. A hemossiderina é um subproduto do sangue,
formada por ferro. Os depósitos de ferro não deixam o local, nem que
a MCC seja removida. Se a hemossiderina deposita-se em uma área
epileptogênica, ela pode causar crises.[3]
Uma vez iniciada uma crise convulsiva, ela não fica
confinada à área epileptogênica. A atividade convulsiva propaga-se
para regiões cerebrais distantes que podem ser mapeadas com EEG, e
seu mapeamento é importante na tentativa de descobrir a área de
origem de disparo das crises.[4]
Podemos comparar este processo a um terremoto, que pode ser sentido a
kilômetros de distância. Seu epicentro pode ser calculado através
de dados colhidos em regiões bastante afastadas dele.
Algumas vezes, a epilepsia pode ser causada por
outras lesões que não as MCCs. Definir os limites da área de
disparo epileptogênico pode determinar se a lesão ou outro processo
é o responsável pelo quadro epilético. Não podemos simplesmente
atribuir toda responsabilidade das crises a uma única lesão que está
localizada numa determinada área. Outros fatores podem estar
envolvidos, tais como o número de lesões ou a predisposição do
paciente a epilepsia. Esta susceptibilidade pode variar bastante de
pessoa para pessoa. E em alguns pacientes o fator causador pode nunca
ser identificado.
Sem a ressecção cirúrgica da lesão o tratamento
mais eficaz é o controle com anticonvulsivantes. O resultado para
controle de crises é excelente em alguns casos. Novos
anticonvulsivantes foram sendo desenvolvidos de forma que atualmente
é possível obter bom controle de crises sem muitos efeitos
colaterais. Além do que, epilepsia causada por MCC facilmente
controlada por medicamentos não tem indicação de tratamento cirúrgico,
salvo casos de necessidade incontestável como efeito de massa,
hemorragia, evolução da lesão, etc.[4]
Para pacientes com epilepsia realmente intratável
ou aqueles com resposta parcial à medicação, o tratamento cirúrgico
é a primeira opção. Ao contrário de outros procedimentos para remoção
de MCC, na cirurgia para controle de epilepsia inclui-se a retirada de
tecido cerebral saudável adjacente impregnado por hemossiderina. Sem
a retida da hemossiderina, o controle das crises não está assegurado.
Obviamente a remoção do tecido cerebral adjacente não poderá ser
efetuada no caso de áreas eloqüentes. RNM funcional ou outras
modalidades de “mapeamento cerebral” podem ser utilizadas para
separar áreas eloqüentes de não-eloqüentes.,sup>[5]
Vale notar que angiomas venosos, independentemente
da sua localização, raramente causam crises convulsivas. No caso de
um paciente com crises convulsivas de longa data passar a apresentar
crises parciais, um estudo com RNM e EEG é fortemente recomendado
para afastar a possibilidade de uma MCC ser a responsável pelo quadro.
References
[1] Robinson JR, Awad IA, Little JR. Natural history of the cavernous angioma.
J Neurosurg. 1991;75:709-714.
[2] Awad IA, Nayel M. Epilepsy surgery: introduction and overview.
Clin Neurosurg. 1992;38:493-513.
[3] Awad IA , Rosenfeld J, Ahl J, et al. Intractable epilepsy and structural lesions
of the brain: mapping, resection strategies, and seizure outcome.
Epilepsia. 1991; 32:179-186.
[4] Awad, IA, Robinson JR. Cavernous Malformations and Epilepsy.
Cavernous Malformations. 1993:49-63.
[5] Black PMcL, Ronner SF. Cortical mapping for defining the limits of tumor
resection.
Neurosurgery. 1987;20:914-919.
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