|
Angiomas cavernosos do
tronco encefálico têm recebido atenção especial recentemente
devido ao aprimoramento das técnicas de imagem e da compreensão de
que pequenos eventos hemorrágicos podem causar grandes danos ao
paciente. Enquanto a maioria (aprox. 75%) das lesões aparece na porção
superior (supra-tentorial) do cérebro, 1 de cada 5 estão
localizadas no tronco encefálico, ou em áreas baixas (infra-tentoriais)
altamente eloqüentes. [1] O sintoma mais comum das lesões do
tronco é o défcit neurológico focal, e não crises convulsivas ou
cefaléia como nas lesões supratentoriais.
Os angiomas cavernosos do
tronco acarretam problemas peculiares para ambos, pacientes e
neurocirurgiões. Núcleos vizinhos encontram-se aglomerados nas
pequenas dimensões do tronco. Qualquer massa adicional ou introdução
de fluido, como, por exemplo, sangue proveniente de hemorragia, pode
comprimir ou romper fibras nervosas importantes.[2] Em outras
palavras, qualquer aumento de volume pode resultar em sintomas
graves e potencialmente fatais. As fibras que atravessam o tronco
controlam funções básicas e involuntárias como respiração,
reflexos de deglutição, batimentos cardíacos, temperatura
corporal, sensação de dor e temperatura, assim como outras funções
voluntárias como movimentação dos olhos, deglutição, controle
dos músculos da face, marcha e fala. Tanto nervos cranianos ou e
tratos longos (para o corpo todo) podem ser afetados. No indivíduo
afetado, o angioma cavernoso do tronco pode manifestar-se com uma série
de sintomas repentinamente, dificultando seu diagnóstico. Os
neurocirurgiões devem atentar para o manejo clínico nestas situações,
e devem pesar os riscos e benefícios do tratamento cirúrgico
destas lesões.
Mesmo que as causas de
hemorragia em cavernomas ainda não estejam bem esclarecidas,
existem recomendações para o manejo clínico especificamente das
lesões do tronco.
Observar e esperar (conduta
expectante). Esta consiste em realizar RNM periódicas para
monitorar as mudanças anatômicas das lesões. Enquanto a lesão
permanecer estável, e não causar nenhum sintoma ou evidência de
nova hemorragia, esta usualmente é a conduta mais prudente.
A remoção cirúrgica (ressecção) deve ser considerada nos
seguintes casos:[3]
A lesão brota da superfície do tronco e da pia-máter, que é o tecido que
cobre o cérebro. Esta lesão é chamada de exofítica.
Hemorragias repetidas acarretando déficits progressivos
Hemorragia aguda externa à cápsula da lesão. Ou seja, sangue proveniente da
hemorragia envolvendo o tecido cerebral adjacente.
A lesão cresceu a tal ponto que há visível compressão dos tecidos adjacentes.
Um estudo recente mostrou
uma taxa de volume do ressangramento de aproximadamente 30% por
pessoa por ano.[4] Outros estudos mostraram taxas variáveis de
crescimento.
Anomalias venosas são freqüentemente
associadas aos angiomas cavernosos do tronco. Um estudo encontrou 86
pacientes que se encaixavam neste perfil. É importante notar que as
malformações venosas devem permanecer intactas durante a ressecção
cirúrgica dos cavernomas, uma vez que promovem drenagem venosa
funcional.[5] Elimina-las pode resultar em infarto e morte.
Devem ser evitados a todo
custo os acessos cirúrgicos que incluam a secção da porção
paramediana da base do 4° ventrículo.[6] Pode até ser questionada
a indicação de cirurgia quando a lesão brota do quarto ventrículo.
O neurocirurgião deve evitar o acesso a esta lesão através da
base do 4° ventrículo.
Radiocirurgia estereotáxica
(“gamma knife”) não é geralmente aceita para o tratamento de
malformações cavernosas do tronco.[7] Taxas de morbidade
relativamente altas podem ocorrem, embora um estudo tenha mostrado
diminuição das taxas de hemorragia após radiocirurgia.[8] Ao
contrário da radiocirurgia para malformações arteriovenosas (MAVs),
radiocirurgia estereotáxica não promove a oclusão do cavernoma.[9]
Para cavernomas radiocirurgia é no mínimo controversa.
Dados os avanços nas técnicas
cirúrgicas microinvasivas, os neurocirurgiões estão ganhando
progressivamente mais experiência em cirurgia para cavernomas do
tronco. No entanto o potencial para déficits importantes com o
tratamento cirúrgico continua alto. E estes riscos não devem de
subestimados. A decisão de operar um paciente deve ser tomada com
muito cuidado, e analisada caso a caso. A partir do momento em que
um paciente preencha os critérios acima mencionados, pode ainda
querer questionar alguns pontos importantes em relação a sua evolução,
como:
Ainda poderei dirigir?
Ainda poderei trabalhar?
Poderei cuidar da minha família?
Ainda poderei... (qualquer coisa relacionada ao seu dia a dia)?
Os sintomas piorarão progressivamente?
Eu estou saudável o suficiente para agüentar os traumas causados por uma
cirurgia cerebral?
Estou jovem o suficiente para que as chances de sangrar novamente sejam
maiores do se estivesse mais velho?
Eu disponho de suporte suficiente para me ajudar no árduo processo de
recuperação?
Concluindo, uma palavra a
mais sobre diagnóstico radiológico. Angiomas cavernosos pequenos,
às vezes, são de difícil detecção. Insista para que pelo
menos uma de suas seqüências seja em “gradiente-echo” (que
é diferente de spin-echo e feixe de prótons). RNM com gradiente-echo
é melhor para detectar angiomas cavernosos pequenos ou puntiformes.[10]
Ainda que a RNM em gradiente-echo tenha detectado uma lesão, é
prudente que se procure outras lesões pelo cérebro, o que pode ser
importante num tempo futuro.
Referências
[1] Samii M, Eghbal R, Carvalho GA, Matthies C. Surgical management of
brainstem cavernomas. J Neurosurg. 2001 Nov;95(5):825-32.
[2] Fritschi JA, Reulen HJ, Spetzler RF, Zabramski JM. Cavernous
malformations of the brain stem. A review of 139 cases. Acta
Neurochir (Wien). 1994;130(1-4):35-46. Review.
[3] Porter RW, Detwiler PW, Spetzler RF, Lawton MT, Baskin JJ, Derksen
PT, Zabramski JM. Cavernous malformations of the brainstem:
experience with 100 patients. J Neurosurg. 1999 Jan;90(1):50-8.
[4] Ibid.
[5] Ibid.
[6] Ibid.
[7] Seo Y, Fukuoka S, Takanashi M, Nakagawara J, Suematsu K, Nakamura J,
Nagashima K. Gamma Knife surgery for angiographically occult
vascular malformations. Stereotact Funct Neurosurg. 1995;64 Suppl
1:98-109.
[8] Kondziolka D, Lunsford LD, Flickinger JC, Kestle JR. Reduction of
hemorrhage risk after stereotactic radiosurgery for cavernous
malformations. J Neurosurg. 1995
Nov;83(5):825-31.
[9] Amin-Hanjani S, Ogilvy CS, Candia GJ, Lyons S, Chapman PH.
Stereotactic radiosurgery for cavernous malformations: Kjellberg's
experience with proton beam therapy in 98 cases at the Harvard
Cyclotron. Neurosurgery. 1998 Jun;42(6):1229-36; discussion 1236-8.
[10] Clatterbuck RE, Moriarity JL, Elmaci I, Lee RR, Breiter SN,
Rigamonti D. Dynamic nature of cavernous malformations: a
prospective magnetic resonance imaging study with volumet
|